Wednesday, December 31, 2014

O Dossier "Metano": qual é a gravidade da "doença" do planeta terra?



Gostaria de partilhar com todos uma "nova" realidade com a qual ainda não me tinha confrontado até à data.

Não me parece que seja uma "teoria da conspiração". Pelo contrário, algo de absolutamente alarmante: o planeta "Terra" está gravemente doente.

Importa que compreendamos o que isto quer dizer, o "grau" e o "avanço" da doença.

Por isso publiquei os quatro seguintes vídeos, não como "diagnósticos" absolutamente fiáveis, mas como algo que nos tem de colocar de sobreaviso - em relação ao qual temos que, fundamentalmente, saber mais.

Não se trata aqui de semear o pânico, mas de informar.


1) Documentário "Last Hours" - cerca de 10 minutos





2) Entrevista a Peter Wadhams, Professor de Física dos Oceanos, e Chefe do Grupo de Física do Oceano Polar no Departamento de Matemática Aplicada e Física Teórica da Universidade de Cambridge.
Data da entrevista: Novembro/2013 - cerca 6 minutos






3) Trechos da entrevista com Natalia Shakhova, pesquisadora da Universidade do Alasca em Fairbanks e membro da Academia Russa de Ciências, na Conferência da União Européia de Geofísica - cerca de 8 minutos







4) Documentário "Artic Death Spiral and the Methane Time Bomb" - na minha opinião, deveriam de reservar 1h30m para verem este documentário, que me parece muito bem construído.



Monday, November 10, 2014

Oficial - a extinção do Rinoceronte-negro-ocidental.






Breve, brevemente, o ser humano, esse ser completamente racional e consciente, sabedor do que faz, somente se encontrará a si por todo o lado. Depois de esgotar todos os recursos, de tudo consumir, de tudo levar à extinção, Deus ou os deuses perceberão o quão são imperfeitos (acto de humildade?), caso contrário não teriam, pois, inventado este animal tão descabido que é o o animal (des-)humano.

Para as novas extinções a caminho recomenda-se:
http://greensavers.sapo.pt/2014/11/10/rinoceronte-negro-ocidental-esta-oficialmente-extinto/

Friday, July 04, 2014

Luis de Freitas Branco: The Death of Manfred (1906) - String Sextet





Impossível de ficarmos indiferentes... mais ainda quando algo tão enorme é escrito aos 15 anos.

Sunday, October 20, 2013

Três problemáticas em tela


Manuel de Oliveira
"Non ou A Vã Glória de Mandar" (1990)

video


Serão todas as palavras atravessadas por um Non?
As palavras são do Padre António Vieira, sermão da terceira quarta-feira da Quaresma de 1670.




Luchino Visconti
"Morte a Venezia" (1971)

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Michael Haneke
"Das weisse Band" (2009)

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Monet - Nenúfares, Paisagem de Água, as Nuvens (1903)




A Pobreza de certas palavras - António Ramos Rosa


É para ouvires o som de um buraco,
certas palavras despidas, certas palavras pobres:
o som de um buraco.

O sopro que ouvires, não o ouves, não é o sopro da árvore.
Aqui esqueceu-se o peso das pedras.

Por isso outras palavras: as que sobram.
Não as que restam.
Não será um grito. Certas palavras, só.

A quebra muda, nem sequer produz um baque.
Eis o que elas produzem depois de ti:
o som de um buraco.

Entre nós: não o ouvido. Certas palavras mais pobres.
obsessivas, mortas.
Persistem. Morrem.

(Retirado da obra "Nos seus olhos de silêncio")

Escolhas musicais


John Tavener - Eternity's sunrise






Berlioz - Lélio ou le retour à la vie Op. 14b, Le pêcheur


Tuesday, July 24, 2012

O esquecimento nos nossos dias ou o recalmento de Freud


Se o meu ser é outra vez,
sem esperar mais será,
ou voltasse o tempo já
de quanto será depois...!

Autor desconhecido citado por Cervantes
na sua obra D. Quixote de la Mancha


"Tudo se esfumava numa espécie de névoa.
Rasuravam constantemente o passado, a rasura era esquecida
e a mentira tornava-se verdade

George Orwell, 1984


Um grupo de cientistas suecos da Universidade de Lund na Suécia afirma que o cérebro pode ser treinado para esquecer lembranças. Preconiza-se que esta «técnica de esquecimento», como lhe chamam, poderá vir a ser utilizada para um conjunto de psicopatologias, como é o caso da depressão ou do stress pós-traumático.

O autor do estudo, Gerd Thomas Waldhauser, afirma inclusivamente que a sua investigação confirma que podemos esquecer os factos de forma deliberada.

Apesar da escassa informação que pude obter em relação a este estudo, aquilo que li suscitou-me algumas peguntas. São elas:

1) será que é possível esquecermo-nos que nos esquecemos? Isto é, utilizamos a chamada técnica de esquecimento para esquecer um evento traumático. Será possível esquecer que utilizámos a técnica do esquecimento?, dado que se não nos esquecermos de que a usámos o mais provável e natural é surgir uma curiosidade impetuosa que nos corroerá por dentro: "mas o que é que seria tão importante que foi necessário que nos esquecessemos?" Por esse motivo, para que esta técnica ou qualquer outra seja bem sucedida é necessário que ela produza um esquecimento do esquecimento, que impossibilite um qualquer tipo de associação psíquica que nos conduza ao evento que foi erradicado da nossa memória. A tarefa afigura-se complicada.

2) A hipnose foi também utilizada como «técnica de esquecimento». Contudo, a sua eficácia foi demonstrada ao longo do tempo como sendo bastante limitada. Caso contrário, poderia-se, por exemplo, hipnotizar um indivíduo para se esquecer que era fumador. Assunto resolvido. Será esta técnica mais credível do que era a tão afamada hipnose? Ou é o retorno do mesmo, de uma vestuta técnica com novas roupagens?

3) Quais as consequências de um esquecimento? Bom, se nos esquecermos que somos falantes deixamos de saber quem somos. E se nos esquecermos de um evento traumático?

Vejamos alguns casos mais extremados: 1) é possível esquecer o evento traumático como é a morte de alguém querido? O que implicaria a existência desse esquecimento? Se for somente da sua morte, será que o tomariamos doravante como vivo? Isso não seria viável, pelos vários motivos que se possam pensar. Ou o esquecimento incidiria sobre a totalidade da sua existência? Com isso, obliterariamos uma parte fundamental de quem nós somos, a parte do outro que existe em nós, o passado do presente em que nos transformámos mediante a dádiva da sua presença; 2) é possível esquecer a morte? Pensemos em alguém que, de um momento para o outro, ficou com a sua hora marcada. O que fazer para se livrar do tormento, da angústia de um tempo que expira e do abismo que se aproxima a uma velocidade sofregante?; 3) Ponderemos agora um caso que pode suscitar hesitações e ambiguidades: uma criança ou uma mulher violada: não terão elas o direito de verem erradicadas da sua mente esse evento traumático, essa marca que os acompanhará para todo o sempre e que interferirá a cada momento nas suas vidas? Este caso, confesso, poderá apresentar-se como uma excepção para a qual não existem fórmulas morais. Contudo, qual seria a consequência desse esquecimento?

Tal pergunta remete-nos para uma «ética do esquecimento».

Convirá, para reflectirmos sobre o modo como poderiamos abordar essa ética, retomarmos o trabalho de Freud sobre o conceito de «recalcamento». Ora, diz-nos Freud, o recalcamento refere-se precisamente a uma lembrança ou uma pulsão cujo acesso à consciência foi barrado. A consequência desse esquecimento, isto é, da força que instaura a vigência de um recalcamento, produz, diz-nos Freud, um «retorno do recalcado». Por outras palavras, isso que está recalcado retorna por vias estranhas à consciência, sobre a forma de sonhos, sintomas ou de angústia.

Trata-se de um esquecimento no qual o esquecido não se quer ir embora, não nos quer deixar. Isto é: se nada dele sabemos (ou antes, nada queremos saber), não é por isso que ele não queira nada connosco. Se é verdade que para nós ele não existe, ele existe em nós e com ele a angústia que provoca. Existe o que se chama de formações do inconsciente, as vias de retorno do que foi excluído da consciência num envoltório irreconhecível. O que aprendemos com Freud é não existe recalcamento sem retorno do recalcado e esse retorno é aquilo que se paga pelo que se esqueceu.

Mas o problema é mais complexo, porquanto Freud distingue o recalcamento primário de um secundário. De modo resumido, o recalcamento primário corresponderia, de acordo com a leitura de Lacan, ao modo como a linguagem ao se introduzir no corpo, ao colonizar a carne e recalcar um hipotético puro estado de natureza primevo, nos faz cair em nós, nos arranca à ausência de nós e nos instala como seres desejantes, como seres afectados por um vazio irrevogável que exige um preenchimento impossível. Este arrancamento à ausência de si é, por um lado, um parto sempre traumático (como Freud procurou teorizar com o complexo de castração) e, por outro, constitui a dimensão psíquica cerzindo-a com a corporal através do que Freud denominou como fixações da libido, as marcas em torno das quais se modulará não só o carácter de um indivíduo, como também aquilo que Lacan formulou como o fantasma fundamental.

Por sua vez, o recalcamento secundário, o recalcamento propriamente dito, é o recalcamento que se impõe aos acontecimentos contingentes do rumo da vida, acontecimentos estes que podem (ou não) adquirir um valor traumático em função da proximidade que estabelecem com a força de atração do recalcamento primário e do fantasma fundamental (por exemplo, um determinado evento da vida quotidiana pode desencadear um medo ou aversão ou obsessão inexplicável em relação algo - são reacções que correspondem já uma actuação do recalcamento, que é nuns casos melhor sucedida e noutros pior). Este recalcamento corresponde pois a uma força de bloqueio e de exlusão de todo o tipo de material ideativo que não seja tolerável para a consciência.

Dito isto, estaremos em condições de perceber que não só o esquecimento que se procura promover cairá sempre no âmbito de um recalcamento secundário, como também é o inverso da proposta de Freud. A sua proposta é de procura de verdade, não de escondimento, esquecimento, recalcamento, mentira.

Convirá, por isso, olhar com atenção para o que nos dirá esta técnica (possivelmente financiada) sobre o «espírito» do nosso tempo?

Retomemos, pois, a última questão apresentada: uma pessoa que foi vitima de um advento traumático tem ou não o "direito" a esquecer-se dele? A resposta reside, parece-me, no próprio modo como ocorrerá esse esquecimento. E aqui poderemos circunscrever o plano em que se pode conceber uma ética do esquecimento.

Em primeiro lugar, a questão que tereremos de colocar é: em que medida uma tal técnica é ética, uma vez que se somente realizar um recalcamento sem se considerar o chamado retorno do recalcado poderá estar-se a sujeitar aqueles que a ela se submitem a uma guerra sem quartel contra si mesmos. Basta termos em consideração o que Freud assinala ao asserir que "um representante pulsional desenvolve-se com menos interferência e mais profundamente se for afastado, por meio do recalcamento, da influência consciente. Prolifera na escuridão e toma formas extremas de expressão" (O Recalcamento, 1915).

E se essa técnica eliminar o retorno do recalcado (a pergunta não é meramente da ordem da ficção, mas é uma possibildiade que a técnica nos poderá presentear no futuro)? Tornar-se-à ética?

A questão aqui torna-se extremamente problemática. Foi por isso mesmo que introduzimos a distinção entre o recalcamento primário e secundário. Até onde se pode avançar na remoção do retorno do recalcado? Quais as suas consequências? Temos um exemplo que nos permite pensar essa hipótese na obra 1984 de Orwell. Quando Winston, após ser submetido a uma lavagem cerebral pela Polícia do Pensamento, em que um dos seus objectivos passaria por «reeducar» o sujeito a raciocinar 2+2=5, isto é, esquecendo-se do seu resultado como 4, o que sucede é que Winston sabe que o resultado não é 5, mas também não se consegue lembrar que é 4. Ele fica tomado pela insistência de procurar uma resposta cuja verdade não pode ser lembrada (essa insistência é um dos nomes do «sintoma»).

O que sucede aqui pode ser novamente explicitado com o recurso a Freud. O recalcamento secundário concerne não somente a um dado conteudo ideativo (a lembrança de um trauma). O que constitui o valor traumático de um conteúdo ideativo é, diz-nos Freud, o investimento pulsional desse conteúdo. A remoção do conteúdo ideativo que o recalcamento opera não suprime, por isso, a força pulsional que lhe inere e que foi desencadeada pelo evento traumático, pelo que esta pode assomar-se mediante diferentes destinos que decorrem do próprio modo como o recalcamento incidiu nessa força pulsional. (Nesse sentido, cabe-nos acrescentar que quando Freud, na sua obra Além do Princípio do Prazer, afirma que a psicanálise não é uma arte de interpretação, tal afirmação deve-se à constatação de um incurável que radica na nossa vida pulsional). Um deles pode ser mesmo o de inundar o sujeito com uma angústia sem nome (ou seja, sem qualquer ligação com uma representação ou conteúdo ideativo).

A hipótese que este exemplo nos permite equacionar é a de um risco severo de se produzir buracos dentro do próprio sujeito, buracos estes que se revelam não como meras falhas, mas como autênticos buracos negros; o perigo de se animalizar as pulsões e as converter em forças indómitas, cruas e bestiais.

Qual é a alternativa? Ou antes, é a pergunta que nos devemos colocar: existirá alternativa à própria vida como processo de esquecimento, ou melhor, à elaboração psíquica da vida no processo de se viver como processo de esquecimento?

Sinto-me tentado em relação a este tema a deixar mais algumas perguntas e considerações que têm como propósito procurar pensar a problemática com que seremos confrontados com o aperfeiçoamento deste tipo de intenções/inovações:

A que nos conduzirá no futuro a apologia de tais técnicas de repressão de lembranças, sejam elas técnicas de esquecimento por actuação química, provocadas por manipulação genética ou por quaisquer outros meios? A que conduzirá uma ideologia utilitarista, mecanicista e higienista numa sociedade que é instigada para se tornar revindicadora de tudo o que há a revindicar, a consumir tudo o que é possível até à exaustão? Como estas técnicas serão implementadas na sociedade da banalização do consumo, numa sociedade em que vigora o imperativo da ultrapassagem de todos os limites, do gozar a qualquer preço, do consumo desenfreado, do just do it, mas que também navega ao sabor da ideologia de um grau zero de sofrimento e da menor tolerância face à dor que daí decorre? Qual será o limite da sua utilização? Vamos chegar ao ponto de eliminar a mínima lembrança desagradável que possa existir em nós na procura de eliminar a angústia que as acompanha? Ficaremos adictos do esquecimento, da mentira? Seguiremos o caminho de nos tornarmos incapazes, impotentes e desprovidos de «ferramentas espirituais» para lidar com as dificuldades e amarguras da vida?

Dead Can Dance -

O (belíssimo) documentário que aqui vemos a acompanhar estas lindíssimas músicas dos Dead Can Dance é o «Baraka» (1992) de Ron Fricke.


"The Host Of Seraphim"




"Yulunga"

Bruegel (o Velho)

Para além da mestria de Bruegel que é manifestada nestes quadros, é igualmente sublime a sua capacidade de expressar a «cegueira» que perpassa o acontecimento de «lucidez» do humano, seja dessa ambição desmedida que nos habita e que nos incita a igualarmos o divino, tal como expressa o mito bíblico da «Torre de Babel» (o que hoje se manifesta nas narrativas da «pós-humanidade»), seja no modo como somos intimados para um «destino» sem que primariamente e no mais das vezes nos questionemos sobre o modo como habitamos esse encaminhamento e o que configura como tal esse habitar. Parece-me que é também o que expressa, ao seu modo, a «Parábola dos Cegos».




A Torre de Babel
Data - 1563
Técnica - Óleo sobre painel
Dimensões 114 cm × 155 cm
Localização Museu Kunsthistorisches , Viena , Austria

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A Parabola dos Cegos
Data 1568
Técnica - Óleo sobre painel
Dimensões - 86 cm × 154 cm
Localização - Museu Capodimonte, Nápoles, Italia

Fernando Pessoa

Meu pensamento, dito, já não é
     Meu pensamento.
Flor morta, boia no meu sonho, até
     Que a leve o vento,

Que a desvie a corrente, a externa sorte.
     Se falo, sinto
Que a palavras esculpo minha morte,
     Que com toda a alma minto.

Assim, quanto mais digo, mais me engano,
     Mais faço eu
Um novo ser postiço, que engalano
     De ser o meu.

Ah, já pensando escuto, a voz reside
     No interno fim.
Meu próprio diálogo interior divide
     Meu ser de mim.

Mas é quando dou forma e voz do 'spaço
     Ao que medito
Que abro entre mim e mim, quebrando um laço,
     Um abismo infinito.

Sugestão de Filme: "Vivre Sa Vie" de Godard

Deixo-vos um trecho muito interessante de uma conversa com um filósofo...


Tuesday, October 18, 2011

Arvo Pärt

Variations for the Healing of Arinushka





Für Alina

Teixeira de Pascoais

Excertos da Elegia da Solidão (1)


Entre turbas de mortos não ser mais
Do que um espectro vivo?
Ser doido cataclismo!
Ser desprendida folha,
Entregue aos vendavaes,
A voar, a voar em negros vôos afflictos!
Olhar seu proprio sêr como quem olha
O fundo d'um abysmo!
E querendo esconder nas sombras o seu rôsto,
Para chorar tão intimo desgosto,
Ter de invocar a noite em altos gritos!

Ó meu vulto perdido em trevas misteriosas!
Cégo, a bater de encontro ás brutas cousas,
Coberto de feridas, a sangrar…
Sou como a sombra em lagrimas do mar;
Nuvem desfeita em chuva;
Um enorme phantasma de viuva
A rezar e a chorar na solidão sem fim!
Noite de horror sempre abraçada a mim!
Ó noite, onde ha soluços e estertores
E procissões infindas de clamores…
Multidões de phantasticas mulheres,
A cantar, a cantar sinistros miséréres…
Sombras que o vento leva…
Doidos perfis de fogo a rir na treva
Que nos desvenda as lividas entranhas,
Com nuvens e contornos de montanhas,
Com arvores agitadas de anciedades,
Com desgrenhadas, intimas saudades
E tragicos desejos que arrefecem,
Soes que n'um mar de sangue desfalecem!

Sou a noite em que o mundo se consome:
As cousas mais humildes e sem nome,
As estrelas, os Deuses, tudo quanto
Se amortalha na sombra do meu canto
Que chora a sua eterna imperfeição!
Sou tempestade, noite, solidão,
O frio esquecimento,
A sombra do luar bailando com o vento,
Um gemido de nevoa, uma ternura, um ai,
Phantasma d'uma lagrima que cáe.






(1) Retirado do Project Gutemberg

Caravaggio

David com a Cabeça de Golias







Year - c.1610
Type - Oil on canvas
Dimensions - 125 cm × 101 cm (49 in × 40 in)
Location - Galleria Borghese

A experiência de Milgram sobre a obediência à autoridade

Em que medida acreditamos que o nosso comportamento é insusceptível de ser manipulado por uma autoridade?

A maior parte de nós «acredita» que somos dotados de uma invulnerabilidade no que se refere ao nosso lívre arbítrio.

O que a experiência de Milgram vem revelar é que tal crença, tal sentimento, é ilusório. A obediência pode enraizar-se dentro de nós a um nível que não só desconhecemos, como também se pode manifestar de difícil controle. De referir que esta experiência vem tornar visível em termos científicos algo que já se sabe à muito nas instituições militares ou religiosas.

Deixo-vos uma repetição da experiência de Milgram realizada em 2009.

Convirá salientar que nesta experiência 9 dos 12 participantes foram na sua obediência a um nível impensável. Já na experiência original realizada em 61, 65% (26 de 40) atingiram esse nível impensável de obediência. De sublinhar ainda, que nas diversas repetições do experimento que foram feitas desde então o "nível impensável de obediência" variou entre os 40% aos 60%.

Dá que pensar.








Wednesday, July 06, 2011

Vamos fazer dinheiro

Esta é uma entrevista de um ex-"assassino económico" retirada do documentário Let's Make Money (2008). Vale a pena vê-lo na íntegra.

Conjunções Disjuntivas

Caspar David Friedrich - O viajante sobre o mar de névoa (1818)





Para acompanhar a beleza deste quadro de Friedrich, sugiro-vos um excerto de Virgílio Ferreira da sua obra Aparição. Se com os seus quadros Friedrich provoca a fragmentação do olhar panoramático e neutro do real, porquanto nos faz confrontar com esse real aparentemente ensimesmado numa diferença de si como a contrapartida de um ver «romântico», Vergílio Ferreira eleva esse olhar sem uma visibilidade do real que lhe garanta serenidade a uma vibração inquietante. Merecem que nos demoremos, naveguemos naquilo que nos oferecem.

"Quem te habitava não é. Viverás ainda na memória dos que te conheceram. Depois esses hão-de morrer. Depois serás exactamente um nada, como se não tivesses nascido. Quantos crimes, vexames, remorsos, alegrias e projectos e traições e castigos e prémios e tudo e tudo nos milhões de homens que passaram noutros séculos por esta pequena aldeia e souberam os seus sítios e a montanha e a ribeira e se souberam daqui e disseram «esta casa é minha, esta terra é minha» e sentiram a aura de tudo isto, destes ventos, destas noites, e são hoje o nada integral, absoluto, pura ausência, nada-nada? Eis que começa a tua longa viagem para a vertigem das eras, para a desaparição do silêncio dos milénios."

Mad Season - Wake Up

Sunday, July 03, 2011

Herberto Helder

Isto que às vezes me confere o sagrado, quero eu
dizer: paixão: tirar,
pôr, mudar uma palavra, ou melhor: ficar certo
com a vírgula no meio da luz,
dividindo,
erguendo-me do embrulho da carne obsessiva:
que eu habite durante uma espécie de eternidade
o clarão -
isto não o entendo, esta pancada desferida
no máximo concreto: copo,
cigarros,
o livro, e do próprio meu: a ininterrupta
amargura da memória, o tão pouco de
quente respiração - isto
eu não entendo que os dedos sejam arrancados com o copo, que
no caderno a vírgula
fundamental
trave tudo para sempre - e depois é a obra das bruscas
aberturas, a abertura de cada coisa, e cada
minha abertura na abertura
do mundo - isto
não o entendo fora e dentro, esta
velocidade, só
porque fui tão oficinal com as pontuações mais simples
e o quotidiano em baixo,
amor e desamor
- porque não entendo que uma garra me tenha apartado por trás da cabeça
e me tenha impelido, e o
desequilíbrio sobre as árduas escritas em casa, ou a
devastação morfológica, ou
um abalo, um abuso,
nada,
me concedam a sumptuosa ignorância quantas atmosferas acima
dos pés na vírgula: o
arrabatamento

Wednesday, February 09, 2011

Joseph Wright of Derby , 1768, Experiência com um Pássaro numa Bomba de Ar

(convido-vos a clicar para ver a imagem aumentada e a permanecerem por alguns momentos na contemplação deste belíssimo quadro)




Esta obra prima de Wright of Derby coloca-nos diante da primazia do olhar. Do modo como aquele que vê está alienado na solidão do seu olhar.


Ilustra-nos de modo soberbo como o olhar não é, de modo algum, um acontecimento meramente espacial. Materializa-se, antes, como um acontecimento biografico-disposicional (o termo alemão Sitmmung, disposição, é utilizado tendo em vista as disposições do espírito, isto é, de se estar bem ou mal disposto), a saber, é perpassado por tensões afectivas, pulsões de vida e de morte mais ou menos intensas que foram, vão sendo e serão inscritas na historicidade do transeunte da temporalidade que é cada um nós. O olhar faz-nos. Na relação do tempo que atravessamos com o olhar tornamo-nos naquele que somos, bulímicos ou anoréticos do Desejo. Não existe aqui meio termo para o olhar desejante, bem como não existe o olhar sem o desejo, consequência da inscrição de um Eu numa história (que Freud afirmaria como edipiana), num devir.


O olhar, desse modo, jamais é um olhar que olha para as coisas como elas são, mas está ininterruptamente assaltado por tensões de não-indiferença, por uma eletrificação pulsional que o coloca perante um mundo em função de paixões e ódios, atracções e evitamentos, perseguições e fugas, dos rostos que nos são amigáveis, que amamos, que odiamos ou que nos são neutros, dos locais que nos causam repugnância ou desgaste, conforto ou descanso ou daqueles que nos evocam memórias tristes, alegres, nostalgia, das situações que nos provocam angústia ou concupiscência. Tal como as paredes das nossas casas (ou ainda mais as dos nossos pais) não são meramente feitas de tijolo e cimento, mas têm incrustadas a nossa história. São íntimas e familiares ao nosso olhar. Segredam-nos quem somos.


É em Nietzsche, por exemplo, que poderemos encontrar um dos excelsos representantes do derribamento da ilusão de um acesso panoramático ao real, como se este fosse o mesmo para todos, e da afirmação de que o olhar nada mais pode ansiar do que ser uma visão do mundo. Foi Nietzsche quem estilhaçou o mundo em fragmentos e deu a cada um o pedaço proveniente da refracção única e intransmissível que do olho se constitui num olhar para afirmar: "isto é teu, foi assim que gastaste o tempo do teu olhar".


Ponto assente: não existe o perspectivismo sem a dor, a dor da solidão. O olhar não é meramente um modo de acesso ao mundo. Esse é o engano. Concede, tão somente, o acesso àquele que vê da sua própria posição no mundo. Não é disso que se trata na fábula da Branca de Neve, quando a sua madrasta diante do olhar que lhe é devolvido pelo espelho enuncia: "espelho meu, espelho meu, existe alguém mais bonita do que eu?"


Poderemos constatar isso mesmo no Estádio do Espelho de Lacan. O que a mãe diz de modo silencioso ao seu bebé no acto de o levar ao espelho é algo como: "é de um tu que se trata, é contigo que te terás de haver. Logo que te conseguires ver ao espelho deixará de existir um Nós primordial. Terás de lidar toda a tua vida com essa perda pois é ela que te abre o trilho a que chamarás destino". Este destino que é aberto com o olhar é o trilho do desejo. Nesse sentido, o destino do olhar será o de estar ao serviço, sem que se tenha sobre isso uma grande lucidez, de uma procura de algo que se quer reaver, recuperar: o sonho informulável do reencontro impossível com a Totalidade do mundo.


Está em causa a compreensão de que é através do olhar que o sujeito sofre um efeito de reviramento do seu íntimo, do De Dentro, no exterior, enquanto que trespassado pelo desejo desse De Fora. O De Dentro do sujeito é cerzido pelo olhar com o De Fora, de tal forma que o si mesmo de cada um nós não está no nosso interior, uma vez que o De Dentro está suturado com o De Fora, mas antes no exterior. É o centro do nosso ser que está deslocado, ausente do interior do nosso corpo através do olhar: exilado de si sem que o saiba, é a si mesmo que o sujeito procura no exterior ao recobri-lo com as ficções do seu desejo.


O olhar de um indivíduo é também, por esse motivo, um abismo intransponível para um outro. Quanto muito é signo de algo para alguém, de uma alegria, um sofrimento, indiferença, tédio, paixão, tristeza. É também dessa intransponibilidade que o quadro nos fala, por exemplo, na figura masculina que envolve com o braço uma das raparigas procurando acalmá-la. Contudo, ele nada sabe do que se passa com ela: não existe sintonização possível com o sentimento que a inunda. Estamos sempre a sós com o nosso sofrimento, mesmo quando o Outro nos conforta.



O amor, no que se refere ao olhar, seria uma forma de tentar transpor-se essa distância inconhecível. Na melhor das hipóteses, leva-nos sempre até metade do percurso de uma travessia que se actualiza, a cada vez, na sua infinitude. O outro é, mesmo quando amado, sempre e já um desconhecido.


Mas disto as duas figuras enamoradas que surgem do lado esquerdo do quadro nada querem saber, tal que estão tomadas pelo turbilhão vertiginoso de fazer Um com o Outro chamado paixão. Nada querem saber de um resto que resiste em mim e nesse Outro ao movimento de totalização e de fusão do amor, de um resto recalcitrante secreto e inefável, a chave perdida do nosso ser, metades irrevogavelmente descontínuas que somos, como afirmava Aristófanes no Banquete de Platão. O amor é, por isso, um dos sentimentos mais ilustrativos do descentramento do sujeito, do modo como está exilado do seu si mesmo, como Pessoa tão bem nos recorda: "Nunca, senão pensando no amor, me sinto tão longínquo e deslocado".




Um dos olhares mais intrigantes e mais enigmáticos é sem dúvida o do cientista na parte central do quadro:




Recordemo-nos de que estamos no palco do Iluminismo. As promessas da ciência fervilham e irrompe a febre do progresso.


Wright of Derby descreve no seu quadro uma experiência científica que nos coloca perante o espectáculo da asfixia de um pássaro. Vemos uma cacatua que morre nas mãos de um cientista à medida que este demonstra a formação do vácuo ao extrair o ar do interior do globo de vidro onde ela jaz.

É uma imagem que procura sugerir-nos uma divisão subjectiva, colocar-nos num entre dois, entre a ciência como algo cujas descobertas e invenções podem ser desencadeadoras de fenómenos de perplexidade, mas que, inversamente, também podem resultar em horror.

O que me parece digno de se sublinhar no olhar daquele que realiza a experiência, de uma experiência que, mais do que científica, envolve um gozo silencioso, uma certa vontade de algolagnia, é não só o seu modo de éxtasis em relação à própria cena figurada no quadro, de um saimento do olhar para fora do quadro, para o espaço da temporalidade, isto é, um lugar vazio que por excelência pode ser ocupado por qualquer um daqueles que, como Hanna Arendt diz, vive uma morte vivente (mors vitalis) ou uma vida morredoura (vita mortalis), como também o modo como nos desafia pelo seu estado incólume ao acto que pratica.

O olhar que Wright of Derby nos revela no cientista é ele, verdadeiramente, o olhar do espectador, daquele que nos espera, a nós, os muitos que por ele passam, numa posição de domínio, de subjugação, tal como se fosse um demiurgo invulnerável à tragédia humana e aos seus apelos de amparo. Mais, é um olhar que se sustenta num acto que nos procura inflingir um suspense (morrerá ou não a cacatua?) de modo concomitantemente à forma inquitantemente estranha [Unheimlichkeit], para recorrer aos termos de Freud, como nos olha do altar da sua inafectibilidade.

Temos também o olhar do rapaz que está do lado direito do quadro, um olhar que está deposto no local da experiência. Não se sabe bem o que ele procura fazer. Procurará recolocar a gaiola no local dela, certo de que a cacatua não sobriverá à experiência, ou procurará antes descer a gaiola para voltar a introduzir a cacatua no seu interior logo que a experiência termine? Ou será ainda que procura esconder a lua cheia com as cortinas, um símbolo que representava (representará ainda?) o enigmático, o inapreensível, a metáfora de um mistério último inacessível e incapturável, como que para nos sugerir que com ciência não só se convoca a tentação de tudo se dizer sobre o homem, como igualmente que com essa ilusão de uma desvelação total da sua essência (tentações estas que podemos hoje em dia ouvir, por exemplo, no domínio genética, do psicologico-comportamental ou da neuro-psiquiatria) surge o perigo impensado de uma herança árida e deserta, verdadeiramente intransitável para que se possa fazer o caminho de uma procura de si, de um perguntar por quem se é n'isso que se é (seja no olhar ou no amor).

Por último, o olhar da figura que é identificada como o filósofo. O seu olhar está absorto. Qual é o objecto da sua meditação, a causa do seu distanciamento? Será que se refere à natureza da ciência? Ou será antes que se refere à essência do humano e à sua tentação vertiginosa de abraçar um inumano íntimo e desconhecido que se agita e sussurra dentro de si?

Saturday, February 05, 2011

Nusrat Fateh Ali Khan - Aisi Soorat Teri Part 2

Deixo-vos a 2ª parte desta fantástica música (a música, nas suas três partes, tem mais de trinta minutos...!).





Saturday, January 16, 2010

Verdade, espantosa banalidade, inesperada verdade

"Que é feito daquela juventude? Aqueles escritores e poetas, e aqueles génios, aquela juventude, a «jovem geração» como ela orgulhosamente se intitulava, orgulhosa de ser jovem, sem imaginar que a velhice e a morte existiam, que esperavam por eles no fim da estrada. Onde estão os eternamente jovens que eles julgavam ser? Ou, em todo o caso, criadores de obras-primas imortais, «obras-primas» esquecidas , sepultadas, desaparecidas entre dezenas de milhares de outras obras-primas, montes e montes e montes de quadros, de papel, de papéis, palavras que o vento levou, o vento, as tempestades da história ou apenas o tempo, esse abismo implacável, o tempo que gasta, destrói, rasga, dissolve tudo. Banalidades, sim, banalidades, verdades. Verdades que cada um, cada geração descobre, progressivamente, com o mesmo espanto, o mesmo desespero, a mesma angústia desde há séculos e séculos e séculos. E até isto, até esta descoberta é banalidade. Verdade, espantosa banalidade, inesperada verdade. Patetas que nós somos."

Eugéne Ionesco, A Busca Intermitente

Friday, January 01, 2010

Um poema de António Ramos Rosa

A palavra é o desejo do espaço e o espaço do desejo
para que tudo o que em nós é confuso e vago
se transforme em leve arquitectura
com janelas para o mar ou campos ondulantes

Não sabemos de onde vem esse desejo incandescente
se é do sangue da terra ou de um voluptuoso vento
e por isso ignoramos se o que escrevemos coincide
com o que em nós se cala numa intérmina neblina

Mesmo quando a palavra é transparente e nua
nunca elimina esse silêncio de montanha imersa
e assim o que nunca foi dito ficará não dito
tão inantigível como a monótona claridade do dia

Thursday, December 31, 2009

Reflexões sobre o conceito de infinito: o nosso íntimo desconhecido

Uma das formas para se poder abrir uma possibilidade para a reflexão sobre o infinito é começar pela indagação sobre o ponto de partida onde a sua existência é conjurada, a saber, o da constituição do seu advento em função do saimento de um olhar do nada, da emergência de um espectador da ausência de si mesmo. É com o acontecimento da irrupção do Sapiens, que um olhar se confronta com a possibilidade do infinito no seu horizonte. Mais, a constituição urdida do olhar e do infinito, um em função do outro, é de tal ordem que o olhar faz a sua aparição na condição de arremessado em direcção a esse abismo insondável por o que daí retorna como um chamamento irresistível. Não é por acaso que os astrónomos ficam capturados pela procura incansável de ver um mais além do visível no espaço celeste, que os marinheiros d’outros tempos se sentissem fascinados pela linha do horizonte no mar onde, supostamente, o mundo conheceria o abismo in-visível contíguo ao seu limite, que os budistas procurem ultrapassar o mundo das imagens e do pensamento para atingirem um mais além, o Vazio, que os povos sempre fossem atraídos em relação ao Absoluto, ao Todo territorial, ou, como o caso mais evidente, das muitas e diferentes formas de crença num mais-além divino todo-poderoso. Como tentar perceber a essência desse chamamento?

Uma primeira indicação poderá ser percrutada em Pascal, o que eu chamaria de vocação do homem para o infinito: “o homem (…) só é produzido para a infinitude[1]. No entanto, sobre que matéria se constitui o infinito, ou melhor, o homem como vocação para o infinito? De onde e como se abre a possibilidade de vislumbrar esses horizontes infindáveis?

Teremos de começar por ponderar o limite habitado por um ser de perspectiva que, com a sua forma de existência, comporte em si a notícia de um mais além insondável. Não parece ser possível o advento do infinito a partir de um não-lugar, de um momento zero de si. O infinito, nesta ordem de ideias, surgiria como a consequência de um finito, de um olhar movediço, ou seja, de um ponto de vista marcado por um movimento interrogador e re-contemplador que, paradoxalmente, é lançado, pela essência desse mesmo carácter, no confronto com abismos contíguos aos seus limites, com in-visíveis que a cada momento re-escrevem a sua finitude – toda a história humana acaba por ser a história da re-escrita da finitude -, com uma distância indefinida que retorna para além do manto da visibilidade em que está constituído: com o seu íntimo (e desconhecido) Desconhecido.

É agora a própria noção de uma finitude que se configura problemática. Como determinar a fronteira para além do qual se acederia a um olhar sobre o infinito: tal como alguém que tivesse percorrido o caminho até ao último cume do conhecido para testemunhar a fronteira da finitude e a contemplação de um abismo sem fim? Ou será, pelo contrário, que ao habitarmos no centro de uma esfera de visibilidade, estamos condenados a cada vez que nos deslocarmos, deslocarmos igualmente, num sempre já, o centro dessa mesma esfera e os seus limites no modo do que Samuel Beckett designou de uma estúpida obsessão de profundidade: “Haverá mais panos de fundo, panos de fundo mais fundos? A que panos de fundo dá acesso este pano de fundo?[2]

Dado que a constatação que fazemos em relação ao carácter problemático e indefinido do cubículo finíto onde o homem habita, do espectador que se vê na assistência daquilo que o rodeia, o que daí decorre é que a indefinição da finitude afecta, de dentro de si, o próprio esclarecimento do infinito.

O que podemos afirmar para já, tendo em conta as considerações feitas, é que a essência do infinito é a de um permanentemente adiado, corresponde, quanto muito, ao avesso de um suposto último pano de fundo em função do qual se acederia aos seus domínios. O que talvez nos permita dar o passo de ponderar a existência de um compromisso, de uma relação de intimidade e de entretecimento entre o finito e o infinito. Neste sentido, é possível pressupormos que o infinito surgiria aqui como o que Lacan designa de extimo, ou seja, numa relação de exterioridade íntima com o finito, a sutura do infinito no finito como o seu centro mais íntimo. Não é o finito que é a casa do ser, ou seja, meramente a irrupção de um lugar no qual o homem se constitui como um espectador neutro face àquilo que vê, mas é na medida em que esse olhar se caracteriza por ser lançado em «direcção a», na ultrapassagem do seu horizonte e com uma intencionalidade que escapa aos domínio do cogito, a habitação conhecida, que se poderá considerar a ideia de uma relação de composição entre o finito e o infinito. Corresponderiam, uma e outra, ao seu avesso e direito, ou seja, às linhas que compõem o que Pascal designa como a “doença natural[3] do homem, a saber, a desproporção estrutural de que ele é prisioneiro. Como nos diz Pascal, o “que é o homem na natureza? Um nada à vista do infinito, um todo à vista do nada, um meio entre nada e tudo. Infinitamente afastado de compreender os extremos, o fim das coisas e o seu princípio são para ele invencivelmente ocultos num segredo impenetrável, igualmente incapaz de ver o nada donde é tirado, e o Infinito em que se emerge[4].

Entramos numa problemática de identidade, desse meio entre nada e tudo, e, mais concretamente, da identidade do ser do homem, da identidade do que anteriormente surgia como da ordem do finito, do dentro, da unidade, por oposição ao infinito, ao fora, aos mistérios do indeterminável, dois todos considerados separadamente, mas que agora surgem transfigurados como duas metades entretecidas uma na outra: “há um fora e um dentro e eu no meio, talvez eu seja a coisa que divide o mundo em dois, de um lado o fora, do outro o dentro, pode ser tão fino como uma lâmina, não estou num lado nem no outro, estou no meio, sou a divisória, tenho duas faces e não tenho espessura”.[5] A problemática da identidade, que consideramos aqui a partir do entretecimento do infinito e do finito, do dentro e do fora, ou seja, a problemática da determinação de uma identidade e de uma pertença como claramente estabelecidos e apreendidos – como aparece ilustrado hoje no equívoco do espírito geométrico da psiquiatria, da neurologia e da psicologia, com as pretensões de redução exclusiva da vida psíquica ao determinismo biológico, genético e das categorias psicopatologicas -, configura-se como algo da ordem de uma miragem e de uma ilusão, na medida em que se está sempre e já afectado irrevogavelmente pelo desconhecido e pelo indeterminável, como está bem patente, por exemplo, no fenómeno do olhar.

Detenhamo-nos um pouco sobre este tema. O fenómeno do olhar é um cúmplice constitutivo da identificação primeira do ser humano ao resultado de um lance de dados divino, o da dádiva de um corpo, a identificação do nosso eu presidida pelo testemunho do rosto. É esta a ilusão de uma habitação primordial, a de que um rosto é a encarnação transparente do seu eu. Mas poderia alguém dizer-me: “Conheces-me pelo meu rosto, conheces-me enquanto rosto, e nunca me conheces-te de outra maneira. Por isso não te passou ainda pela cabeça que o meu rosto possa não ser eu.[6] Da mesma forma que quando nos olhamos ao espelho, pelo que é que ficamos captados? Para onde olhamos quando nos vemos ao espelho? Não para os olhos ou para a totalidade do rosto, mas para o olhar donde somos olhados, para esse olhar donde recebemos a notícia, nos instantes inefáveis de nós mesmos, de um abismo, de uma outridade para além da identidade que reconhecemos em nós e que se poderia formular da seguinte forma: quem sou [eu] naquilo que sou?

É esse carácter de estar lançado num para além, como vocação para o infinito, que é parte constitutiva da nossa essência, enquanto um movimento existencial movediço de determinar o indeterminável, da notícia invasiva mas não reconhecida de uma desproporção estrutural (não é essa uma das denuncias de Pascal, ao enunciar a desproporção no homem?). O infinito é da ordem de um movimento de procura, de localização de si impossível numa “esfera infinita que em toda a parte tem o centro e em parte alguma a circunferência[7]; é o retorno da notícia do indeterminável na língua indizível da angústia sempre que o homem pensou constituir uma certeza sobre si - como se eu me pertencesse a mim nos meus actos irreflectidos, nos meus sonhos, nas minhas paixões: a reterritorialização impossível de uma errância no tempo: “Conheçamos pois o nosso alcance – diz-nos Pascal – nós somos alguma coisa, e não somos tudo; o que temos de ser rouba-nos o conhecimento dos primeiros princípios, que nascem do nada; e o pouco que temos de ser esconde-nos a vista do infinito[8].

Se a desproporção estrutural do homem é algo que pode ser realçado através do questionamento do conceito de infinito, como explicar a constituição do homem numa essência desproporcional que tende a esconder a vista do infinito em relação a ele mesmo e ao que o rodeia? Qual a causa, a génese dessa desproporção? Parece-me que Pascal andou nas imediações da resposta sem, contudo, a ter conseguido explicitar. Vejamos então de que ordem são essas imediações. É de uma intuição surpreendente a definição de Pascal do que seria o método perfeito de conduzir o raciocínio nas diversas matérias: “tudo definir e tudo provar[9]. Mas como Pascal diz, este método é impossível. Existem termos primitivos que se caracterizam por uma indefinibilidade, tal como o espaço, o tempo, o movimento, etc., cuja tentativa de definição acarretaria mais um obscurecer dos mesmos do que a sua clarificação. Esta constatação de Pascal permite fazer sobressair o problema com que ele se confrontou, embateu, encalhou, o da própria essência da linguagem, como nós poderemos também observar mais pormenorizadamente no Crátilo de Platão. O que se constata tanto em Platão como em Pascal, é que as palavras são da ordem de um rasto, de uma pegada, reenviam e remetem sempre para outras, sem que exista a Palavra que diga o que ela é, que faça surgir a coisa representada em total transparência de si mesma. O homem está condenado a dizer-se nas palavras sem que exista a palavra que diga a verdade do que ele é.

Podemos afirmar que Pascal depara nas suas reflexões não só com o sujeito do Verbo, mas com o próprio muro da linguagem. Ora, é na própria essência da linguagem que podemos encontrar a causa e a condição da desproporcionalidade do homem. A incompletude estrutural do ser humano, o corte do ser andrógino de Aristófanes, corresponde ao atravessamento da linguagem no corpo da carne. Reside na linguagem a génese de uma singular descontinuidade, que se traduz como a perda no homem da unidade consigo próprio e o encontro irremediavelmente des-encontrado com o Real. É sobre esta incompletude, des-encontro, que reside a condição do advento do homem como vocação para o infinito.

É ao caminhar nos trilhos da linguagem que o homem está condenado ao exercício interminável de equilibrismo sobre as palavras, a acender-se a si mesmo na irrupção de um olhar que desconhece a matéria que o constitui, que o lança “entre esses dois abismos do Infinito e do Nada[10]. Este é também o campo da angústia como a notificação de um para além do véu e o da necessidade irremediável de uma orientação de um norte existêncial frágil e tímido no crespúsculo nevoento que compõe na visibilidade.

Uma importante consequência de se estar constituído na e pela linguagem é que, na medida em que as palavras são da ordem do rasto, o que surge como problemático é o acesso a uma Resposta inoculante para sua doença natural, à garantia de um ponto cardeal que nos oriente no nosso itinerário existencial e que nos resguarde do “eterno silêncio desses espaços infinitos[11] com que somos confrontados.

Poderíamos pensar que uma das formas sintomáticas com que se lida com esse eterno silêncio dos espaços infinitos, consentâneo com o in-visível que se instala no avesso de um hipotético último pano de fundo, com o desconhecido que se entranha em nós sob a forma de uma máscara incógnita, seria a tentação do Absoluto, da Completude: o tudo definir e tudo provar que Pascal antevê como o método perfeito mas impossível; as metades divididas de Aristófanes imersas na procura de se fundirem numa só; o método para acabar com as discussões em Leibniz, o encontro pos-mortem com Deus na religião (religio viria de religare, de acordo com Lactâncio); o Saber Absoluto em Hegel, a pretensão de exclusividade totalitarista do saber científico, etc.

Neste sentido, o Absoluto surge como a própria transgressão absoluta, como transgressão do infinito, a saber, a absolutidão de uma Resposta, a certeza de um projecto de existência, a definição da indefinição, o cobro do desamparo existencial. É Pascal quem nos diz que “ardemos de desejo de encontrar uma base firme, e uma última base para aí edificarmos uma torre que se eleve ao infinito; mas todo o nosso fundamento estala, e a terra abre-se até aos abismos[12]. O pavor do eterno silêncio desses espaços infinitos de que ele fala corresponde ao pavor da confirmação dos ecos desse desamparo de que estamos reféns, de que não é possível a elevação ao infinito como a absolutização de nós, da temível recordação de que estamos condenados a percorrer o itinerário da infinitude num breve momento finito, da angústia em suportar a inexistência da Revelação, de um Segredo divino e da Resposta derradeira como o que no palimpsesto da vida tecida pela palavra se trataria de encontrar: a sua própria justificação.

[1] Pascal, B., Do Espírito Geométrico e da Arte de Persuadir, Porto Editora, Porto, 2003, pg. 81.
[2] Beckett, S., O inominável, Assírio & Alvim, Lisboa, 2002, pg. 10.
[3] Pascal, B., Do Espírito Geométrico e da Arte de Persuadir, op. cit., pg. 29.
[4] Ibidem, pg. 89.
[5] Beckett, S., O inominável, pg. 142.
[6] Kundera, M., A imortalidade, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1999, pg. 37.
[7] Pascal, B., Do Espírito Geométrico e da Arte de Persuadir, op. cit., pg. 88.
[8] Ibidem, pg. 92.
[9] Ibidem, pg. 18.
[10] Ibidem, pg. 89. Pascal refere-se ao infinitamente grande e ao infinitamente pequeno.
[11] Ibidem, pg. 98.
[12] Ibidem, pg . 93.

Bibliografia
Beckett, S., O inominável, Assírio & Alvim, Lisboa, 2002.
Pascal, B., Do Espírito Geométrico e da Arte de Persuadir, Porto Editora, Porto, 2003.
Kundera, M., A imortalidade, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1999.

Thursday, July 02, 2009

O capitalismo e a indústria farmacêutica

"A farmacêutica americana Pfizer vai pagar quase 55 milhões de euros em indemnizações pela morte de 11 crianças que teria usado como cobaias para experimentar um novo medicamento, noticiou a BBC.JEFF CHRISTENSEN

A verba foi acordada após a farmacêutica ter chegado a acordo com o estado nigeriano de Kano, que responsabilizou a Pfizer pela morte das crianças, mas esta batalha legal ainda não chegou ao fim e ainda decorrem negociações.

O caso remonta a 1996, quando uma epidemia de meningite fez mais de 11.000 mortos na Nigéria. A Pfizer teria enviado médicos que recolheram 200 crianças para serem usadas como cobaias nos ensaios do Trovan, um novo medicamento. 11 crianças morreram e 181 outras sofreram danos cerebrais entre outros efeitos secundários, escreveu o diário espanhol El País. O britânico The Independent acrescenta que a equipa deixou o país passadas apenas duas semanas.

O estado de Kano, no norte do país, processou a Pfizer e exigiu uma indemnização de aproximadamente 1.500 milhões de euros. Por seu turno, o Governo Federal nigeriano deu início a um outro processo civil de mais de 5.190 milhões de euros por danos, de acordo com o diário The Wall Street Journal.

No entanto, o Governo nigeriano admite retirar as acusações se as negociações em curso entre a Pfizer e o estado de Kano chegarem a bom porto, diz a BBC online. A próxima audiência do caso está marcada para 26 de Maio mas há “fortes indicações de que o caso está a chegar ao fim”, disse o juiz Shehu Atiku em entrevista à Reuters.

“Concordámos nos princípios gerais do acordo. Iremos trabalhar em conjunto nos detalhes”, disse Aliyu Umar, advogado do estado do Kano, à mesma agência.

Uma fonte citada pela AFP afirmou que a Pfizer terá de pagar cerca de 26 milhões de euros às famílias das vítimas e 22 milhões de euros para a reconstrução do Hospital de Doenças Contagiosas, onde decorreram os testes do Trovan. Os restantes sete milhões destinam-se a cobrir os custos legais suportados pelo estado do Kano.

“Prometeram que as negociações sobre as quantias não estariam concluídas até que se decida exactamente como essas quantias serão aplicadas”, disse Umar à BBC. “Existem ainda questões importantes que precisam de ser resolvidos antes do acordo final”, declarou a Pfizer ao Washington Post. Como evitar a apropriação ilegal destes fundos é um dos pontos a negociar, avançou a Reuters.

O acordo foi mediado por o antigo presidente dos Estados Unidos Jimmy Carter e pelo antigo líder militar da Nigéria Yakabu Gowon.

O caso serviu de inspiração a John Le Carre, autor de O Fiel Jardineiro. O romance foi adaptado para o cinema e venceu quatro Óscares.

A denúncia foi feita inicialmente por Juan Walterspiel, um médico da empresa que, numa carta enviada à direcção da Pfizer, denunciava a violação de “normas éticas”. O médico foi demitido e a Pfizer alegou que ele não tinha quaisquer relações com a farmacêutica, de acordo com o El País.

Ao longo de todo o processo, a empresa defendeu que tinha a autorização das autoridades locais e dos pais das crianças para testar o medicamento. Além disso, afirma ainda que apenas seis crianças morreram depois de ter tomado o Trovan, e que as outras cinco teriam morrido depois de ter recebido doses de Rocephin, um medicamento testado, segundo o El Pais.

Malam Musa Zango, pai de uma das crianças que serviram como cobaias, afirma que a Pfizer não tinha a sua autorização para testar o Trovan no seu filho, disse em entrevista ao The Independent. Sumaila, que na altura tinha 12 anos, ficou surdo e mudo depois de lhe ter sido administrado o medicamento

O medicamento nunca foi aprovado para ser tomado por crianças nos EUA, mas a Food and Drug Administration aprovou-o para adultos em 1998. Anos mais tarde, a mesma agência norte-americana colocou severas restrições ao seu uso por poder causar problemas de fígado. A União Europeia baniu o medicamento em 1999, escreveu o Washington Post.

Apesar deste acordo, as famílias poderão ainda processar a Pfizer no estado de Nova Iorque, onde se situa a sede da companhia.
"

Noticia retirada do jornal Público de 06.04.2009

Friday, May 01, 2009

Criticas a Alice Valente - em defesa do inconsciente freudiano

Depois de ter lido o post da Alice - http://alisenao.blogspot.com/2009/04/evolucao-da-inteligencia-ou-ao-que-nos.html , que, de resto, achei interessante, não sem sentir um certo incomodo em relação a alguns pontos que não se prendem directamente ao conteúdo do texto, mas que são transversalmente presentes em algumas das suas publicações ao longo dos anos: estes pontos referem-se a uma oposição crítica em relação à psicologia e à psicanálise que, quanto a mim, nalguns casos gritantes é completamente infundada e equívoca, ou até mesmo um exercício de jogar às escondidas do qual não consigo perceber a pertinência.

Respeito a sua posição, mas neste caso específico não concordo com ela. Longe disso.

Formulo esta crítica e resposta, em primeiro lugar, porque não defendo dogmas de fé nem idolatrias, nem tão pouco argumentos de autoridade. Não os concedo a ninguém, nem a Freud ou Lacan, nem a Deleuze nem a Marx, nem a qualquer outro. Apelar-se à crítica não é apelar-se à Bíblia.

Dito tal, não fica invalidado o facto de que não acredite que certas perspectivas e certas práticas fazem parte do património da humanidade, de uma conquista sua inalienável. Uma delas, quanto a mim, é a descoberta de Freud, e não tenho qualquer tipo dúvida quanto a isso. E porque não existe A psicanálise (tal como não existe A filosofia), mas existem diferentes posturas e perspectivas teóricas, práticas e éticas, não posso subscrever o meu assentimento a todas elas só porque se enquadram na designação generalista de Psicanálise.

Tal quer dizer que, quanto a mim, algumas das críticas que a Alice faz à psicanálise são, no meu entender, correctas e válidas. O que não acho correcto é a sua forma de criticar, na medida em que ela se rege por uma ilusão de crítica À psicanálise, como se ela existisse, como se a sua crítica perpassasse as diferentes perspectivas da psicanálise por igual, como se ambas tivessem uma coluna vertebral partilhada, sem ver que os seus núcleos são núcleos descentrados e excêntricos uns em relação aos outros, são incomensuráveis e comportam diferenças insanáveis. Por outras palavras, ela subsume a heterogeneidade das várias posições singulares e mesmo dispares e, dessa forma, opera como Procrustes, decepando o que dessa heterogeneidade existe, para que se possa a afirmar a substância única, "A" Psicanálise, como um conceito, uma identidade, manipulada como bem se entender. Um alvo pronto a abater.

Sabemos bem, inclusive a partir de Deleuze, como o modus operandi dessas generalizações e reificações está ao serviço do modus da lógica identitária (que ele incansavelmente criticou) e ao serviço dos fetiches. Quando falamos da psicanálise, falamos do quê em concreto, é o que se poderia perguntar à Alice. Quando ela critica a psicanálise, o que é que motiva esta sua "forma" crítica, onde tudo é o Mesmo, tudo igual, tudo leva por tabela, sem excepções e sem diferença. E como não quero passar por alguém que acusa fortuitamente sem apresentar as devidas provas, podemos confirmar isso mesmo no seu último post onde ela alega a existência de "tantos especialistas, psicólogos, freudianos" entre outros mal-intencionados na contribuição para a afirmação do eugenismo no nazismo. Saberá ela que os textos de Freud, tal como de muitos outros judeus, foram queimados e que a psicanálise foi uma prática perseguida pelo nazismo? Não percebo a base factual desta afirmação, não sei o que ela entende por freudianos e não apresenta uma qualquer referência dos contributos dos tantos freudianos à teleologia nazista. Esta é, na verdade, uma acusação original. Coitados dos freudianos, acusados de tantas coisas, só faltaria serem acusados de andarem a dançar valsas com os nazistas. Aonde pretenderia chegar ela com a introdução deste termo, freudianos, e quase de uma forma dissimulada aos olhares mais desatentos, num texto (validamente) crítico à inovações da psicologia e às suas relações com o eugenismo?

Mas o seu erro, na minha opinião, não é meramente o da fetichização crítica da psicanálise, vai mais longe (como é o caso desta suposta alegação). Esse erro é apenas o ponto de partida para se legitimar que se diga todo o tipo de disparates (como veremos a seguir). Digo disparates, porque não sei que com que outro nome epitetar tais construções de bricolage.

Sabemos o quanto Deleuze denunciou as miragens do princípio de identidade dos conceitos e das representações. Esse mesmo Deleuze que, no estilo do D. Quixote, também fez da psicanálise um moínho de vento, metendo os pés pelas mãos no que se refere à sua crítica teórica, e, pensando estar a dizer umas abstrações inteligentes, nada mais disse do que umas tolices intelectuais. Não é preciso sermos génios, mas sim sabermos ser críticos, para o constatarmos nalgumas das suas principais obras, como é o caso de Diferença e Repetição (ver, por exemplo, qual a sua interpretação sobre qual é a intuição fundamental de Freud no Para Além do Princípio do Prazer. É pena alguém da excelência de Deleuze extrair tão pouco e tão ao lado) ou do Anti-Édipo. A esse propósito, podemos ver a citação da Alice do Anti-Édipo: http://alisenao.blogspot.com/2007/11/anti-dipo-04-abjecta-dependncia.html -, citação que oportunamente comentei, sem qualquer resposta esclarecedora da sua parte. Quem conhecer minimamente tanto a teoria freudiana como a lacaniana não deixará de esboçar um sorriso a afirmações como "a PSICANÁLISE castra o inconsciente, injecta a castração no inconsciente". Como legitimar nos textos de Freud este tipo de asserções? Será que a Alice saberá dar alguma lógica a esta frase de Deleuze, principalmente a partir de um qualquer texto de Freud (já para não falar no Lacan, onde encontramos as coisas de uma forma mais clara do que a água mais cristalina)? Bom, como diz Wittgenstein, nem tudo o que é lógico é verdeiro, e se para Deleuze esta afirmação tinha alguma lógica, só poderia ter lógica imanente ao seu próprio moínho de vento.

Tão pouco consigo perceber onde a Alice quer chegar no seu post "Imagina-se o inconsciente" - http://alisenao.blogspot.com/2006/09/imagina-se-o-inconsciente.html - com a asserção de que o objectivo da psicanálise é a cura do inconsciente. Está certo que estamos numa democracia e que cada um pode dizer aquilo que quiser. Mas aí reside o seu segredo. Noutros termos, a democracia implica menos dizer-se tudo o que se quer de uma forma displicente e "a Lagardere", do que o ter responsabilidade naquilo que se diz. Na verdade, gostaria que a Alice pudesse explanar um pouco mais as suas ideias sobre esta tese que avançou. Talvez estejamos face a uma verdadeira revolução teórica da psicanálise e isto sem darmos conta. Com certeza que oportunamente ela nos explicará de que forma é que se dá esta cura do inconsciente. Será pela castração do inconsciente, que avança o "clínico" Deleuze?

Enquanto a Alice não nos revela o que está por detrás de tal tese, tenho que confessar que se ela acha que tal formulação é uma inovação, eu a acho uma brincadeira às psicanálises e aos incendiários sem ponta por onde pegar. É como andar a espalhar boatos e esperar que deles resulte alguma coisa. Mas o que ela procura com essa postura, somente poderá ser ela a dizê-lo. E espero que o diga.

Escrevi estas críticas, porque espero que a Alice saiba poder reconhecer que a humanidade é fertil em desenvolver técnicas que poderão ter utilizações não éticas. As antropotécnicas são uma componente intrínseca ao nosso próprio modo de existir, como afirma Sloterdijk. Para o bem e para o mal. A psicanálise é uma delas, e, não nos iludamos, de que todas as suas perspectivas têm pontos criticáveis (existe alguma bibliografia minimamente credível e honesta sobre o assunto). Tal como a educação. Tal como a psicologia (como a Alice demonstrou, e muito bem, no post que motivou a minha resposta). Tal como a filosofia. Quem poderá aprovar a interpretação de Nietzsche pelos filosofos nazistas, a sociedade perfeita imaginada por Platão, ou a adesão de Heidegger, o defensor da clareira do ser, ao Partido Nacional Socialista? Sem esquecemos a arte e a existência de artistas de que nem sei o que o que lhes chamar. Com certeza que tudo menos artistas.

Espero, deste modo, que a Alice possa inflectir reflectivamente sobre a sua equivocada posição contra A psicanálise, até para poder constatar e ver que ela (A psicanálise) não existe: é um ilusionismo mal-intencionado, que não é tudo igual, tudo o Mesmo e, dessa forma, não operar com uma lógica que está muito afastada da realidade da verdade que é a diversidade de várias perspectivas psicanalíticas tão distantes como a água e o fogo. Continuar a insistir nessa postura crítica é, quanto a mim, optar pela via mais fácil e a que permite falar sem o fazer a partir de um conhecimento de causa. Se se quer criticar, o que é legítimo, ao menos que se proceda por uma crítica relativamente esclarecida sobre aquilo que se critica, caso contrário somente instalados confortavelmente no plano daquilo que Heidegger designou de Gerede, iludidos de que temos legitimidade para dizer todo o tipo de disparates. Nesse caso, seria preferível levar a sério Wittgenstein e ficarmos em silêncio.

Saturday, September 27, 2008

Tuesday, September 09, 2008

A vocação para a Verdade segundo Freud

Nunca se provou que o intelecto humano tenha um sentido especial para a verdade, e que a vida mental do ser humano manifeste uma tendência particular para reconhecer a verdade. Antes pelo contrário, notámos que muito facilmente o nosso intelecto erra sem disso se aperceber, e que nada há em que acreditemos mais facilmente que naquilo que, sem atender à verdade, vem ao encontro das nossas ilusões e desejos

Freud

Sunday, August 10, 2008

Marx, Freud e Nietzsche



Três nomes cuja obra supostamente deveria ser intemporal. Três obras de ruptura, de revolução (revolução - uma palavra que hoje está fadada a ser proscrita da linguagem corrente). Se Nietzsche, como diz o professor Mário Jorge de Carvalho, é um autor onde os "pulgões" facilmente se podem acomodar (subvertendo o seu sentido), já em Marx e Freud a situação adquire contornos diferentes. Freud à muito que quase sucumbiu ao recalcamente civilizatório e aos fetiches teóricos. Se a descoberta do inconsciente foi algo muito controverso na sua época, é o carácter revolucionário dessa descoberta que hoje custa a manter vivo, como pudemos ver no "mundo psy" com as realidades empíricas das psicologias "científicas" e das psiquiatrias, com toda uma máquina industrial de psico-teleologias, assim como poderemos observar um vasto mercado para a "psicologia ortopédica" nas práticas das avaliações psicológicas nas escolas e nas prisões, tanto como nas empresas de recrutamento e selecção, uma actuação que "consiste em prender cada indivíduo a uma identidade sabida e conhecida, bem determinada de uma vez por todas" (Deleuze) que corresponde, por sua vez, aos processos de normalização e reciclagem humana, de alienação das forças da vida pela sua re-condução para o mundo do mercado (do consumo e do trabalho). É neste mundo do mercado que o inconsciente actualmente é uma ferida insuportável, a ferida do sintoma-sujeito (do desejo) como a verdade desse desejo. Se, por um lado, se incita vorazmente sujeito a satisfazer com uma gula insaciável o seu desejo, a gozar sem limites as potêncialidades deste admirável mundo novo, por outro lado, nada se sabe sobre o que fazer com os sintomas que daí advêm. Mais vale a pena calá-lo, sedá-lo, desprezá-lo, medicá-lo, instrumentalizá-lo, explorá-lo. Existe uma indústria para tudo isso. Curiosamente, é aqui que Deleuze propõe a luta por uma subjectidade moderna enquanto resistência a estas formas de dominação identitárias (cujo único propósito é o da melhor domesticação do ser humano), até porque, acrescentarei, o inconsciente é o que faz explodir as identidades, é o que troca e sempre trocará as voltas aos leitores assíduos das bíblias de psicopatologia e que, enquanto tal, nunca poderão entender que o (sujeito do) inconsciente também se expressa como um sintoma-resistência, como um acto de criação enquanto exercício subversivo d'isso que resiste à sua captura (basta observar os "criadores" que, para surgirem como tal, rompem com um certo doutrinismo, estagnação, e idolatrismo académico - toda a criação é da ordem de uma ruptura, ultrapassagem). O sintoma é da ordem do incapturável, do incurável, como propõe Lacan (a proposta de Esquizoanálise de Guattari acaba por ir nesse sentido, se bem que concebida de uma perspectiva diferente da perspectiva de Lacan).

Se em relação a Freud o panorama é negro, para Marx não é melhor. Marx, hoje, é um autor incomodativo, nomeadamente para as pessoas que cumprem a sua vida como "funcionários do capitalismo" (de certa forma o somos todos, uns mais, outros menos, uns mais cegos, outros mais lúcidos, uns com mais fervor, outros com mais resistências). É um eco do passado que não se quer ouvir. O que é que isto quer dizer, "funcionários do capitalismo"? Para mim, representa o conjunto das pessoas que cujo o trabalho é uma peça central, não como factor de sobrevivência, de ganhar a vida, de um desempenho que corresponde a uma parte da vida, mas como um peso predominante e avassalador sobre os outros domínios da vida, sobre a generalidade da existência, cumprindo assim o super-ego do capitalismo ("a vida a isso obriga"), a voz que ressoa inconscientemente como a necessidade de obtenção de sucesso pessoal, de um estatuto social e de um exercício de poder que nunca é demais, bem como do "Capital" que sustenta esse estatuto e esse poder (a luta puro prestígio em Hegel é também uma luta pelo estatuto e pelo poder, tal como se passa no darwinismo social do capitalismo), integrados na lógica do Espírito do Capitalismo, tal como descrito por Max Weber, ou seja, movidos por uma "Ética Protestante" (trabalho, trabalho, trabalho) na perseguição dos sonhos e ilusões, direi eu, das cenouras que o capitalismo por detrás de nós nos coloca à frente de um olhar estreitado pelas palas. "O trabalhinho é muito bonito" (...) "a tua política é o trabalho, o trabalhinho", diz-nos José Mário Branco.

É lógico que ao nos guiarmos por este farol, Marx torna-se um autor incómodo, ou como dizem antiquado, ultrapassado, estudado por pseudo-revolucionários, tal como é argumentado nos discursos críticos em relação a Freud. O incómodo torna-se visível por ser um incómodo menos intelectual do que emocional, ou seja, com menos fundamento na sua obra do que nos ecos do passado. As críticas tecidas acabam por ser sustentadas numa base desprovida do conhecimento do seu texto, como se o assunto não pudesse ter mais seriedade do que uma conversa de café. Acima de tudo, permanece um certo desconhecimento sobre a obra de Marx, a não ser que era um defensor da ditadura do proletariado, que escreveu O Capital como crítica da sociedade capitalista, e tudo em função da confusão de Marx com marxismo e com comunismo (como se tudo fosse o mesmo). Talvez isso seja o suficiente para não se querer saber mais dele, para provocar resistências. Se atendermos ao facto de que o não querer saber consiste em nada mais do que aquilo que Freud explicitou com o conceito de recalcamento, é fácil constatar-se que o que está em causa é o recalcamento de Marx, uma pretensão que, na minha opinião, é a tentativa de se fazer surgir um segundo apêndice no lugar do que anteriormente se chamava de cérebro.

No entanto, e em abono da verdade, um "retorno a Marx" (sem qualquer conotação religiosa, doutrinária ou partidária, mas crítica), no sentido de se ir para além dele, de se reinventar o seu espírito e o seu texto revolucionário, hoje, é um trabalho mais necessário do que nunca (tal como em relação a Freud) do ponto de vista de uma teoria crítica da sociedade (devemos em absoluto cortar com os excessos do marxismo no passado - está em questão o que é possível produzir a partir de Marx, bem como de outros autores incontornáveis). É a vida que reclama por isso, a nossa vidinha, a vida que gastamos como se de dinheiro se tratasse (inclusivé nos consultórios daqueles psicólogos e psiquiatras que actuam como os normalizadores, como os re-adaptadores do sistema, ou como George Orwell designava, a polícia do pensamento), a reinvenção de um estilo de vida diferente, menos cego e a-crítico, egoísta e individual, menos material e consumista. É nesta lógica da inevitabilidade do estilo de vida que levamos, "a vida é assim"... dizemos, quão amarrados que estamos ainda à tradição judaico-cristã, que perdemos o tempo da vida dos outros ao perdermos a nossa, perdemos a sua velhice, abandonando os nossos avós ou pais em lares, perdemos o florescer de outros, abandonando os nossos filhos às televisões e em cresces, privando-os e privando-nos do partilhar do tempo único que é o que cada um vive, como se de facto a vida fosse assim, uma imposição da natureza e não do homem, e no nosso caso presente, da estrutura de dominação capitalista e dos seus mandamentos de apuramento do faro pelo lucro. Faz-me lembrar essa segunda natureza que Pavlov impôs ao cão com o condicionamento. Por nossa vez, a nossa campaínha começa logo de manhã com despertador regulado pelo Outro.

Para justificar a importância de Marx, nem é preciso o referir-se da miséria extrema em África (estão tão longe... longe demais para nos preocuparmos com eles, é o que às vezes me parece ouvir em determinados discursos...) e a imigração clandestina (...que quando chegam às nossas portas é o xenofobismo o que ameaça fender as nossas máscaras altruístas e as dos nossos políticos como nossos representantes), as mudanças climáticas, a subida do preço dos combustiveis e dos bens alimentares, etc, etc. Basta referir que se alguns "funcionários do capitalismo" são bem sucedidos, a grande maioria dos "candidatos" (alguns existem que não precisam do estatuto e das "medalhas" com que o capitalismo os recompensa e, como tal, nem se constituem como "candidatos") não teve a mesma sorte. Trabalham com as suas licenciaturas e mestrados em caixas de supermercados, em call-centers desumanos, ou passam a vida a serem explorados por empresas Outsourcing, numa precarização sempre crescente do mundo laboral para que uns poucos tenham casas caríssimas no centro de Lisboa, juntamente com os seus Porsches, Jaguares, Mercedes, Audis e BMW topo de gama; pagam a roubalheira desmedida dos bancos, bem como fortunas para criar um filho em cresces particulares (porque as do Estado só são acessíveis com uma boa cunha - assim ouvir dizer, até porque não quero ser processado por difamação) - entramos também na época do filho único, e tal como os chineses, não o fazemos livremente. Sem falarmos no fantasma do regresso da escravatura, como ilustra a proposta da UE para aumentar o horário da semana de trabalho para 65 horas (em determinadas circunstâncias).

Nada justifica as grandes desfasagens salariais, nem mesmo os discursos daqueles que apregoam que muito investiram para chegarem onde chegaram. A partir daí nada mais há a dizer, segundo dizem, tudo o que foi ganho foi bem merecido e mesmo assim pouco (quase que aposto que é um discurso que também circula não apenas pelos lábios das centenas de "candidatos" a novos-ricos, mas como também dos grandes directores das grandes companhias do "Estado" que recebem "insuficientes" milhões de ordenados e reformas). Se, na verdade, a procura da excelência deve ser recompensada (porque em qualquer tipo de sociedade também existem aqueles que só se sabem por à sombra da bananeira), nada justifica a bestialidade e a disparidade do que se passa hoje, aliás como Marx já tinha avisado no passado. São esses argumentos que originam e patrocinam os momentos dissociados da socialização de valor (Robert Kurz), que justificam a exploração de todos os outros não integrados nessa lógica (os dissociados), seja em África, na China, etc., ou mesmo no interior do próprio mundo Ocidental, patrocinando-se autênticas pedradas no que deveria ser o exercício dos direitos humanos. São esses argumentos que estão na base da procura glutona, cega e desesperada (como se vê no caso dos cães que estão atrás das cadelas com cio) do lucro, da cristalização de uma sociedade, de um mundo (pois cada sociedade acaba por recriar, como micro-mundo, e ainda mais nos tempos da globalização, o que se passa por todo o mundo) cada vez mais dividido entre cidadãos de primeira e de segunda (e mesmo entre aqueles que aparecem como "sans papiers", como o que Agamben designou de "Homo Sacer").

Poderiamos referir alguns exemplos a propósito do que Kurz chama de momentos dissociados: o que Marx à mais de 100 anos designava como o exército de reserva de desempregados, que hoje tem uma plena funcionalidade como um dos "mecanismos" importantes para manter os salários baixos e precarização dos vínculos laborais, bem como o lucro elevado para os grandes capitalistas - esta dissociação é intrínseca, é um produto inerente ao entrecruzamento da democracia com o capitalismo: não é o caminho de uma sociedade com valores cada mais iguais e partilhados o que assistimos, na medida em que o desemprego tal como hoje existe é um fenómeno derivado da modernidade industrial, é absolutamente necessário ao capitalismo na sua conquista do lucro, como Marx demonstrou; um outro exemplo, que remonta à Revolução Francesa e tem igualmente o previlégio de demonstrar a sua actualidade: a abolição da escravatura nos EUA (em Dezembro de 1965 através da 13ª Emenda Constitucional) não derivou dos Princípios Universais da Revolução Francesa (1789/1799), 65 anos antes, como o reconhecimento do Outro como conquista social, mas, como propõe Kurz, porque a escravatura se tinha tornado disfuncional no processo produtivo dos EUA; curiosamente, é interessante que alguns dos representantes da Revolução Francesa tenham sido os responsáveis pelo esmagamento da insurreição dos negros no Haiti, apesar destes invocarem os mesmos princípios de Liberdade, Igualdade e Fraternidade (vemos o que se passa hoje com a diferente atitude insalubre - consoante sejam países com matérias-primas ou não - do mundo ocidental para com países como o Sudão, Angola, Burundi, Ruanda, Serra Leoa, etc.,)

Por isto mesmo, esquecer Marx, torná-lo apenas uma conversa de balcão, de entretenimento, são as armadilhas actuais para a sua desacreditação, para a desacreditação do potencial revolucionário do seu texto (ou de qualquer outro texto nessas condições), para não o levar a sério e ainda menos ter que pensar criticamente nos temas que ele problematizou. Mas não basta debruçarmo-nos criticamente sobre Marx. Há que fazer transpor esse potencial revolucionário para o Real como o que Deleuze designaria de linha de fuga. O que isso quererá dizer, é o que temos de descobrir, de produzir.

Igor

Wednesday, May 02, 2007

A Psychê hoje e o seu denominador ideológico invisível

Vejamos algumas notícias que se reportam à forma de como hoje lidamos com a vivência subjectiva de nós próprios (que, para o dizer de forma um tanto ou quanto tosca, indelevelmente se 'compõe' por acordes menores de tristeza, por acordes de sétima de alguma estranheza e não apenas de acordes maiores de alegria) e que perguntas poderemos formular a partir do material reflectido:


1 - Começo com a antropomorfização da depressão nos nossos amigos caninos: o laboratório farmacêutico Eli Lilly lançou o "Reconcile", um antidepressivo para cães. Sem estar a vilipendiar o referido fármaco, terá alguma utilidade mais do que ser um bom negócio e contribuir para o crescimento financeiro de todo um mercado que gira em torno da indústria farmacológica?

Qual é a ideologia que, sem uma contestação 'aparentemente' convincente, subjaz à institucionalização de um conjunto práticas sociais de que esta notícia é um exemplo ? A de um inocente e natural caminho evolutivo darwiniano onde se descobriu a depressão nos cães, como um 'desvio', uma mutação a essa evolução, e a correspondente tecnologia para corrigir esse desvio, de forma análoga ao que se passa com o ser humano?

Talvez seja igualmente uma excelente oportunidade de negócio para os psicólogos cognitivo-comportamentais, a possibilidade de criação de um nova área de especialização dirigida a uma nova população, a população canina. Melhor do que ninguém, eles seriam os legítimos representantes da vanguarda no projecto de desenvolvimento de uma psicoterapia para cães, projecto que começou por volta de 1920 com o desenvolvimento do condicionamento clássico por Pavlov.


2 - Segundo o Infarmed os portugueses gastaram 80 milhões de euros em sedativos, hipnóticos e ansiolíticos, o equivalente ao custo total do novo estádio de Alvalade.

Por enquanto, só se sujeita à medicação psicofarmacológica quem o decide. Contudo, poderemos cogitar para o futuro, sendo inventada a tão desejada pílula da felicidade com que Aldous Huxley parodia em "Um mundo feliz", o dever e o direito de tomá-la como complemento (não de fortalecimento ósseo) psicológico.

Isto porque, a ver o que se passa em Portugal (como no resto do mundo) ao nível da saúde mental, com a primazia da psiquiatria e da prescrição de fármacos, é de inferir uma relação íntima entre a indústria farmacológica e a estrutura de dominação actual, relação pela qual a referida indústria se consuma como sendo uma disciplina do que Foucault designou de anatomia política do corpo humano, pela qual se exerçe o poder discplinar sobre os corpos. É bem visível que o que está em causa na farmacologia não é devolver a autonomia ao sujeito, pois o sintoma é já um dizer (se bem que não reconhecido) sobre uma autonomia, por si mesma, sintomática, mas sujeitar o indivíduo a um colete de forças químico disciplinador que neutralize o que de questionamento nele insiste, que imobilize o que do sujeito funciona no sintoma. De que outra forma explicar a existência de abundantes stocks de fármacos e, de forma concomitante, uma igual abundante prescrição farmacológica?


3 - Esta notícia não se referirá directamente à Psyché, mas permitirá à posteriori fazer a relação com a notícia anterior:

A associação para a defesa do consumidor DECO acusou, em Março de 2007, os médicos pelo acto de prescrição de antibióticos sem necessidade para o efeito.

Será de recear que o mesmo se possa passar com a prescrição de psicofármacos?


4 - Uma palavra sobre a violência doméstica: Cresce número de filhos que batem nos pais.
Como ler este sintoma, o da des-autorização dos pais? Será que as alterações legais que têm existido nos últimos anos conjuntamente com as práticas psicopedagógicas (diga-se que uma grande parte delas muito pouco lúcidas) que se procuram instituir tem algum contributo?

Parece-me, sem dúvida, que a psicopedagogia é o substituto da autoridade parental, é o saber do qual os pais se socorrem na educação dos filhos perante a confirmação da impotência da sua autoridade. Lacan nos 60 e 70 já fazia a leitura do impacte na contemporaneidade do que ele designou o declínio da função paterna. No programa "Portugal: Um retrato Social" do António Barreto na RTP1, pude assistir a qualquer coisa dessa ordem: os pais às 5h da manhã à espera que os seus filhos de 14 e 15 anos saissem das discotecas. É um fenómeno novo, interessante e bastante ilustrativo do desamparo (hilflosigkeit) dos pais face à educação dos filhos, até porque é sobre as gerações mais novas que os imperativos da sociedade de consumo parecem ter mais sucesso.

5 - Novo género de videojogos dedica-se à saúde mental: Um grupo de produtores de jogos estão a desenvolver um novo género, que, segundo alegam, ajuda a melhorar a auto-estima e a saúde mental dos utilizadores. O canadiano Mark Baldwin, professor de psicologia na McGill University espera que o jogo faça com que as pessoas «se sintam bem com elas próprias». O videojogo, criado com base em pesquisas sobre psicologia social, pretende que os jogadores seleccionem um rosto sorridente e aprovador por entre um conjunto de outras caretas, tentando condicioná-los a procurar a aceitação e ignorar a rejeição.

Não deixa de ser tentador confrontar esta tese com uma outra: segundo Ralf Thalemann, do Instituto de Medicina Psicológica da Universidade Charité de Berlim, no V Fórum Europeu de Investigadores de Neurociência, afirma que os videojogos criam dependência e actuam sobre o cérebro da mesma maneira que o álcool ou a cannabis.

Deste confronto coloco-me uma questão: serão esses videojogos dedicados à saúde mental uma metáfora do colete farmacológico?

O que me leva a uma outra questão: não farão parte das disciplinas do corpo, dos objectivos da actual estrutura de dominação que é o discurso do capitalismo, um grande conjunto de saberes e práticas provenientes da psicologia, da psiquiatria e das neurociências, na medida em que, actualmente, são práticas que concorrem para a domesticação do sujeito sob a dissimuladora designação de 're-educação emocional/afectiva', práticas legitimadas sob a alçada de interesses obscuros de dominação social?


6 - Segundo uma pesquisa do grupo Gartner, No ano de 2010, 70% da população nas nações desenvolvidas passará 10 vezes mais tempo por dia a interagir com pessoas no mundo virtual do que no mundo físico.

Face às dificuldades que se tem em domesticar o Real, recalcitrante por natureza, talvez as possibilidades de sucesso de uma estrutura de dominação sejam superiores num mundo virtual à similar Matrix dos irmãos Wachowski. Com um bocado de sorte, talvez possamos ser acompanhados pelos nossos cães.


Igor